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domingo, 20 de junho de 2010

"As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade" Rubem Alves

JARDIM
RUBEM ALVES




Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."


Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.


O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.


Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.



Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.



Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:


"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."



Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65)




"SAUDADE É A DOR QUE SE SENTE QUANDO SE PERCEBE A DISTÂNCIA QUE EXISTE ENTRE O SONHO E A REALIDADE.... "

LINDO ESTE TEXTO DO RUBEM... 

ALIAS.. TUDO QUE ELE ESCREVE É LINDO E TOCA PROFUNDAMENTE A MINHA ALMA...
ESPERO QUE TENHAM GOSTADO...

7 comentários:

Fernanda Reali disse...

Lindo texto, sensível. O primeiro texto do Rubem Alve que li foi "Histórias de quem gosta de ensinar". Até hoje eu guardo e releio.

bjs

Tuka. (Mara). disse...

Exelente Vivi, esse texto que postou no Blog. PARABENS!!
Beijos.

Tuka.

Anônimo disse...

"Flores ao Rubem Alves" ... buquês inteiros pra ele. Que texto primoroso! É bem assim ... sonhamos com um jardim interno. Um jardim cheio de sementinhas cobertas por terra boa, vasinhos que possam acomodar o transplante de uma mudinha com raízes forte. E dá pra construir um jardim mesmo num inverno rigoroso, E da pra se alegrar ao ver o milagre das flores se abrindo. Uma mágica que depende da vontade e da dedicação. Um milagre que é ver surgir um carinho a distância.
Há paisagistas delicados como a nossa Fê. Saudades dela!
Tens um jardim por aqui, Vivi. E ele é fruto da tua vontade, da tua alegria, das tuas apostas nessa vida que muitas vezes, parece um terreno baldio. Transpassastes o muro e plantastes em nós a semente do afeto. E isso é mágica.
Adorei o texto ...
Adoro ver o laço de fita que embrulha o buquê.
Cuide-se ... boa sorte, protejá-se do frio.
Logo ... a gente se vê por aqui.

Muitos beijos,

Bel.

Cirandas da Vida disse...

Minha querida Bel... como sinto falta de você para adoçar minha vida....

Meu afeto por ti é tão sincero, quanto real... mesmo que sendo ainda apenas virtual.

Já te disse isso uma vez e repito... algumas pessoas nos fazem melhores... você é assim.. me faz querer sempre elevar, adocicar, poetizar, tudo que há em mim e tudo ao meu redor.

Saudades sinceras..

bjus doces no seu coração...

Suzana Martins disse...

Linda, que maravilha, que sensibilidade tocada em alma! Mistura de saudade com Cecília e com o Rubens, rs...

Maravilha!!^^

Flor, só te respondendo lá nos Rascunhos Mudos, não se preocupe, só foi um desabafo, tá? As palavras estão aqui, rs... Obrgada pelo carinho...

Já estou aqui te seguindo, rs...

Beijos

Luan Bruno (LB) disse...

Estava morrendo de saudades de você. Eu te amo! Um grande beijo!

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Clarice Lispector

Rafael disse...

Rubem Alves com toque de Cecília... Hum... Nada mal... rerere... Nada é por acaso, não é mesmo? Beijos, Vivi.

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